A cidade de San Francisco já foi chamada de Yerba Buena antes da Califórnia ser tomada pelos Estados Unidos e o local era conhecido pela abundância de ervas boas. Esse pedaço de curiosidade histórica serve como o título perfeito para a mais nova obra do estúdio alemão Mad About Pandas. Esta análise está sendo feita no PS5 e logo de cara o jogo mostra que não é apenas mais uma experiência genérica de plataforma e enigmas em primeira pessoa. A ambientação nos leva diretamente para a década de setenta em uma metrópole vibrante que esconde segredos obscuros e diversas bizarrices. Desde os primeiros minutos o ambiente cativa com um charme muito específico que mistura cores vibrantes e uma sensação constante de que algo está errado com a realidade.
A história acompanha Barb uma jovem ruiva de vinte e seis anos que se mudou recentemente para a cidade e não está tendo muita sorte na vida. Depois que o pneu de sua bicicleta fura ela perde uma importante entrevista de emprego e acaba pegando uma carona no táxi de seu amigo Russell. A viagem tranquila é brutalmente interrompida quando um motociclista barbudo de uma gangue conhecida como Bay Angels ataca o veículo. Esse vilão chamado Bear arranca a porta do carro joga Barb na calçada e sequestra Russell exigindo que ele acelere. É um início frenético que coloca a protagonista em uma busca incansável para salvar seu grande amigo e entender o que está acontecendo.
Para complicar ainda mais a situação a cidade está passando por um intenso processo de gentrificação que muda as paisagens rapidamente. Um bilionário da tecnologia chamado Noel que é dono da empresa Om Technologies planeja comprar o parque principal para construir uma gigantesca torre de televisão e diversos prédios comerciais. Enquanto tudo isso acontece Barb percebe elementos estranhos ao seu redor como móveis piscando e pessoas paradas em uma pose em T totalmente imóveis como estátuas de cera. Esses elementos constroem uma atmosfera de mistério que instiga a curiosidade a cada nova esquina explorada. A trama amarra a ganância corporativa com o caos urbano de uma forma muito intrigante e cheia de personalidade.
A Grande Revelação e a Ferramenta Mágica
O grande brilho narrativo acontece quando você descobre que aquele universo inteiro é na verdade um mundo de videogame. Barb é apenas uma personagem controlada pelo computador enquanto o sequestrador Bear é um avatar de um jogador que decidiu agir por conta própria. A história também lida com questões de inteligência artificial e inclui registros de áudio dos desenvolvedores fictícios explicando a criação daquele mundo virtual. Essa premissa lembra bastante roteiros focados em personagens virtuais ganhando consciência e fornece um motivo excelente para justificar as falhas visuais e os limites invisíveis da cidade. É uma metalinguagem brilhante que sustenta a aventura até o fim mantendo o interesse do jogador.
A virada na jogabilidade ocorre graças a uma maleta suspeita que o motociclista deixou cair durante o sequestro inesperado. Dentro dela Barb encontra o Oscillator que é uma engenhoca parecida com um radar equipada com uma fita cassete em sua estrutura. Essa ferramenta extraordinária é o núcleo de todas as mecânicas de interação e transforma completamente a perspectiva da protagonista sobre o mundo ao seu redor. Em vez de criar buracos dimensionais como em outras franquias famosas esse equipamento permite copiar os vetores de movimento e as propriedades físicas de certos objetos e colar essas características em outros itens.
A mecânica principal exige muita observação e criatividade para progredir nos cenários urbanos e laboratórios. Se você encontrar um guindaste movendo uma caixa para cima e para baixo basta mirar e copiar essa força exata com o seu equipamento. Em seguida você pode disparar essa mesma energia em um barril fazendo com que ele suba e desça da mesma maneira no ambiente. O equipamento mostra uma seta útil durante a cópia para que você entenda exatamente qual direção será aplicada no objeto alvo reduzindo a margem de erro. Essa transferência de inércia permite rotacionar mover lateralmente ou elevar plataformas para criar caminhos seguros em locais inacessíveis.
Com o passar do tempo você desbloqueia novas funções fantásticas para a sua ferramenta principal aumentando a complexidade. É possível copiar o estado gasoso de fumaças ou vapores para fazer com que objetos sólidos se dissolvam temporariamente permitindo atravessar paredes intransponíveis. Outra habilidade incrível permite aplicar características elásticas em superfícies rígidas transformando o chão em um trampolim gigante para alcançar lugares altos. As propriedades podem ser acumuladas em um único alvo o que significa que você pode ter uma plataforma que se move para a direita enquanto gira sem parar criando uma solução dinâmica.
Para evitar confusão visual os desenvolvedores incluíram uma função de escaneamento acoplada ao Oscillator que facilita a exploração. Quando ativada os objetos que possuem propriedades prontas para serem copiadas ganham um contorno laranja enquanto os itens que podem receber essas forças ficam destacados em azul. Essa distinção de cores é fundamental para organizar o pensamento e evitar tentativas frustrantes em itens que fazem parte apenas do cenário decorativo. É uma decisão de qualidade de vida excelente que mantém o ritmo da aventura sempre ágil e muito dinâmico poupando tempo valioso do jogador.
Desafios Crescentes e Criatividade
A primeira metade da campanha apresenta um tom bastante leve e divertido focando em situações inusitadas. Os enigmas envolvem tarefas absurdas como mover metade de um prédio residencial para atravessar a rua ou reorganizar carros inteiros para escapar de um bloqueio policial sem ser visto. Existem momentos hilários em que você destrói escritórios inteiros cheios de figuras imóveis ou limpa o trânsito durante uma perseguição automotiva apenas movendo os obstáculos do caminho com a sua engenhoca poderosa. Essa leveza inicial ajuda a assimilar as regras da física peculiar desse universo virtual preparando o terreno para o que vem a seguir.
No entanto a segunda metade da jornada adota uma postura muito mais exigente e incrivelmente punitiva para o jogador. Os ambientes lúdicos dão lugar a sequências complexas de múltiplas etapas envolvendo poços sem fundo lasers industriais brilhantes e trituradores mortais gigantes. A dificuldade aumenta exponencialmente exigindo que você colete e aplique as habilidades em uma ordem extremamente restrita e com tempo cronometrado. Infelizmente o tamanho muito maior desses níveis finais significa que um erro grave pode forçar o jogador a reiniciar toda a área através do menu principal gerando certa frustração desnecessária durante o progresso.
Um dos pontos altos da progressão acontece no parque de diversões que parece ter sido montado com pedaços flutuantes da ponte Golden Gate. Lá você encontra um casal místico de hippies que atua como guias testando o seu domínio prático sobre cada nova habilidade adquirida ao longo da história. Eles organizam desafios específicos que ensinam os limites práticos do Oscillator integrando o aprendizado de forma totalmente orgânica dentro da trama principal. Esses momentos estão entre os mais satisfatórios de toda a obra pois exigem raciocínio rápido e muita precisão espacial para obter sucesso.
Física Apresentação e Limitações
As mecânicas de saltos possuem particularidades que dividem opiniões mas trazem ideias interessantes para o gênero. O jogo é benevolente ao não punir a morte com telas de carregamento longas retornando a protagonista imediatamente para instantes exatos antes do erro fatal. Contudo a física de plataforma pode parecer um pouco rígida e imprecisa especialmente ao interagir com superfícies elásticas e molas. É comum ficar travado em um enigma simples apenas porque o ângulo de aterrissagem no trampolim não foi perfeito quebrando o ritmo da solução. Além disso você pode pular livremente mas o jogo não permite que a personagem se abaixe o que restringe algumas abordagens criativas.
Visualmente o título aposta em gráficos que lembram pinturas estilizadas muito parecidos com a estética consagrada do estúdio Telltale Games. As cores vibrantes combinam perfeitamente com a temática da década de setenta criando cenários belíssimos e muito bem detalhados em todos os cantos. Os efeitos de partículas possuem toques sutis de histórias em quadrinhos que adicionam muito charme e identidade visual ao conjunto geral da obra. No departamento sonoro as atuações de voz são sólidas e o roteiro traz linhas muito bem escritas para todos os personagens. Curiosamente a trilha sonora evita os ritmos típicos daquela época musical o que é uma surpresa agradável e muito bem executada.
Onde a experiência realmente tropeça de maneira visível é na ausência quase total de opções modernas de acessibilidade para o público. Ao contrário de outros títulos focados em raciocínio não existe um sistema de dicas integrado para ajudar jogadores menos experientes a encontrar o caminho correto. Você não vai encontrar controles de brilho filtros para daltonismo ou formas de desacelerar o tempo para facilitar os saltos mais difíceis. As animações faciais também deixam a desejar com movimentos labiais que parecem artificiais durante as conversas importantes prejudicando levemente a imersão. Felizmente a taxa de quadros na versão de PS5 se mantém incrivelmente estável garantindo uma viagem suave do início ao fim.

O estúdio Mad About Pandas entregou um projeto incrivelmente criativo que esbanja coração originalidade e muito amor pela mídia interativa. Durante as cerca de dez horas de duração você será desafiado a pensar fora da caixa em uma cidade virtual cheia de loucuras e personagens excêntricos. As falhas eventuais na física de saltos e os momentos de pico abrupto de dificuldade não apagam o brilhantismo inovador da ferramenta central do jogo. É uma adição obrigatória para os fãs de aventuras cerebrais que buscam inovações genuínas nas mecânicas tradicionais de resolução de cenários