Review · Nintendo Switch 2

Hawaii agora cabe na mochila

Review feita no
Nintendo Switch 2
Código cedido pela Ubisoft Brasil para fins de análise. O recebimento do jogo não interfere na opinião nem na nota desta review.
O festival inteiro de Oʻahu, com carros, motos, aviões e barcos, agora cabe numa portátil. Existem concessões, mas a próxima curva sempre fala mais alto.
01 História
The Crew Motorfest já era um jogo enorme quando chegou às outras plataformas, então ver toda essa estrutura funcionando no Nintendo Switch 2 é, antes de qualquer outra coisa, uma bela demonstração do que a nova portátil da Nintendo consegue fazer. Não estamos falando de uma adaptação reduzida ou de uma versão paralela criada especificamente para o console. A proposta é transportar o mesmo Motorfest, com seu mundo aberto, seus carros, motos, aviões, barcos, temporadas e Playlists, para uma máquina que você pode simplesmente retirar da base e continuar jogando em outro cômodo. Existem concessões visuais claras e algumas limitações que precisam entrar na conversa, mas depois de passar um bom tempo acelerando pela ilha ficou difícil não reconhecer o mérito técnico dessa versão. Principalmente porque, depois dos primeiros minutos observando resolução, sombras e detalhes do cenário, uma coisa acaba acontecendo naturalmente: você começa a prestar muito mais atenção na próxima curva do que no número de árvores que surgiram alguns metros à frente.
Motorfest leva a série para Oʻahu, no Havaí, e abandona um pouco aquela obsessão dos títulos anteriores em representar enormes pedaços dos Estados Unidos para trabalhar com um espaço menor e muito mais concentrado. A decisão funciona. O mapa continua grande o suficiente para gerar viagens longas, mas quase todo trajeto oferece alguma mudança visual interessante. Praias, estradas costeiras, montanhas, áreas urbanas, vegetação densa e regiões mais abertas ajudam a evitar aquela sensação de estar atravessando quilômetros apenas porque o jogo precisava parecer gigantesco. Há momentos em que dá vontade de simplesmente esquecer a corrida marcada no mapa e seguir por uma estrada qualquer. Esse talvez seja um dos melhores elogios que se pode fazer a um jogo de corrida em mundo aberto.
Explorar Oʻahu não significa apenas dirigir de uma corrida até outra. Existem desafios de velocidade, oportunidades fotográficas e pequenas atividades espalhadas pelo cenário. Isso faz com que um trajeto planejado frequentemente seja interrompido porque alguma coisa chamou atenção no caminho.
Nem todas as atividades são igualmente interessantes, naturalmente. Algumas entram naquela categoria tradicional de conteúdo de mundo aberto criado principalmente para preencher a lista de conclusão. Mas a quantidade de maneiras de atravessar o mapa ajuda a manter a exploração leve.
Também existe a presença de outros jogadores circulando pelo mundo. Eles ajudam a transmitir a sensação de festival sem necessariamente atrapalhar a sua sessão, já que o jogo evita que encontros aleatórios destruam completamente o que você estava fazendo. Funciona bem como pano de fundo para um mundo que pretende parecer ocupado por outros entusiastas de velocidade.


02 Conteúdo
A estrutura gira principalmente em torno das Playlists, e é aqui que Motorfest encontra uma personalidade mais forte. Em vez de simplesmente despejar centenas de eventos pelo mapa e pedir que você escolha qualquer um deles, muitas atividades são organizadas como pequenas celebrações de determinado estilo, marca ou período do automobilismo. Há Playlists voltadas para carros japoneses, modelos clássicos, superesportivos, off-road e diversas outras vertentes da cultura automotiva. Algumas funcionam quase como pequenas viagens temáticas, apresentando veículos e curiosidades enquanto você passa de uma prova para outra.
Isso faz bastante diferença para quem gosta de carros além da competição em si. Uma sequência dedicada a um modelo específico consegue mostrar sua evolução, mudar completamente o tipo de evento no meio do caminho e ainda recompensar o jogador com alguma máquina interessante no final. Nem todas as Playlists possuem exatamente o mesmo impacto, mas a estrutura ajuda Motorfest a evitar aquela sensação de checklist infinito. Existe um motivo para entrar em muitas delas além de simplesmente ganhar dinheiro e aumentar algum número na tela.
E conteúdo não falta. Essa versão chega depois de anos de atualizações, então o Switch 2 recebe um Motorfest muito mais recheado do que aquele disponível no lançamento original. São centenas de veículos, diversas temporadas acumuladas, desafios, corridas e atividades espalhadas pelo mapa. Quando terminei algumas Playlists e olhei novamente para tudo que ainda estava disponível, tive a sensação de ter apenas aberto a porta. Para quem gosta de completar tudo, é fácil imaginar dezenas e dezenas de horas desaparecendo aqui.


03 Jogabilidade
A condução continua trabalhando naquele espaço entre arcade e simulação que costuma ser chamado de simcade. Os carros possuem peso, diferenças perceptíveis de comportamento e exigem alguma atenção em curvas, mas o jogo nunca quer punir o jogador por não saber configurar diferencial ou pressão de pneu. Você entra, acelera e rapidamente entende aquilo que o veículo espera de você. Há assistências para quem deseja uma experiência mais tranquila e configurações suficientes para aumentar a exigência conforme a confiança cresce.
Essa escolha combina perfeitamente com o restante do jogo. Motorfest quer apresentar carros para todo tipo de jogador, não apenas para quem passa horas estudando telemetria. Ainda assim, veículos muito diferentes conseguem transmitir personalidades próprias. Uma máquina de alto desempenho pede outra abordagem quando comparada a um carro pesado, enquanto superfícies diferentes alteram bastante a maneira como você freia e posiciona o veículo.
As corridas também possuem uma boa sensação de velocidade, mesmo com a versão do Switch 2 trabalhando a 30 quadros por segundo. É claro que quem chega diretamente de um PS5, Xbox Series ou PC rodando o jogo em uma taxa maior vai perceber a diferença imediatamente. Eu percebi. Só que essa estranheza diminuiu bastante depois de algum tempo. Não é a configuração ideal para um jogo de corrida, mas também não prejudicou minha diversão a ponto de eu pensar constantemente nisso enquanto jogava.
Uma das características que continua diferenciando The Crew de muitos concorrentes é a possibilidade de abandonar completamente o carro. Motos, aviões e barcos fazem parte da experiência e podem transformar uma simples viagem entre dois pontos em algo muito mais interessante. Às vezes eu estava seguindo por uma estrada, decidia cortar caminho pelo céu e alguns segundos depois já estava atravessando o mapa em uma aeronave. Em outro momento, mudar para um barco e seguir pela costa parecia simplesmente mais divertido do que procurar uma ponte.
Nenhuma dessas categorias possui a profundidade de um jogo dedicado especificamente a aviação ou navegação, e nem precisa. Elas existem principalmente para ampliar o playground. Os controles dos aviões são acessíveis, os barcos são simples de entender e as motos trazem uma sensação diferente dos carros sem obrigar o jogador a reaprender completamente o jogo. Essa variedade ajuda bastante durante sessões longas porque Motorfest dificilmente precisa permanecer preso a uma única forma de competição.





04 Nível técnico
“Você começa a prestar muito mais atenção na próxima curva do que no número de árvores.”
Visualmente, existe bastante coisa para elogiar e também algumas concessões impossíveis de ignorar. O mundo continua bonito em movimento. Céus coloridos, praias, reflexos na água e mudanças de iluminação conseguem produzir alguns momentos excelentes, especialmente quando uma corrida acontece durante o nascer ou o pôr do sol. No modo portátil, o tamanho da tela também ajuda a esconder parte das reduções gráficas e o resultado pode impressionar bastante considerando que estamos segurando o console nas mãos.
Quando você começa a olhar com mais atenção, porém, os cortes aparecem. Vegetação possui menos detalhe, sombras podem surgir de maneira perceptível conforme você avança e elementos do cenário nem sempre estão completamente carregados a longa distância. O pop-in é provavelmente o defeito visual que mais chama atenção. Em estradas muito abertas, principalmente durante o dia, é possível perceber árvores ganhando detalhe à medida que o veículo se aproxima e sombras aparecendo relativamente perto do carro.
Isso incomodou mais durante exploração tranquila do que nas corridas. Quando estou a alta velocidade tentando ultrapassar alguém ou acertar uma sequência de curvas, meu foco naturalmente permanece no asfalto e nos adversários. Nessas situações, muitas dessas limitações desaparecem quase completamente da minha atenção. O problema continua existindo, mas a maneira como você joga determina bastante o quanto ele incomoda.
Alguns efeitos também foram simplificados. Fumaça, partículas, destruição de objetos e determinados elementos climáticos não possuem exatamente a mesma presença visual das versões mais poderosas. Não vejo isso como grande surpresa. Para colocar um mundo dessa escala no hardware do Switch 2 mantendo uma experiência utilizável, alguma coisa precisava ser reduzida. A pergunta importante é se essas reduções destroem aquilo que Motorfest tenta fazer. Na maior parte do tempo, não.
A ausência de um modo de 60 FPS certamente será um dos pontos mais discutidos desta versão. Existe apenas uma configuração de desempenho e o objetivo é manter o jogo em torno dos 30 quadros por segundo. Para um jogo baseado em velocidade, obviamente seria melhor ter uma taxa mais alta. Quem é extremamente sensível a 30 FPS provavelmente não vai mudar de opinião apenas porque Motorfest funciona bem.
Mas desempenho também precisa ser analisado pela consistência. Durante a maior parte da experiência, a condução se manteve estável o suficiente para que eu pudesse jogar sem sentir que o próprio hardware estava constantemente brigando contra o jogo. Existem quedas ocasionais e momentos mais pesados, mas não encontrei algo que transformasse as corridas em uma experiência desagradável.
O que mais me impressionou é que a sensação de velocidade permaneceu. Quando você entra em um carro realmente rápido, existe aquela tensão de ver a estrada chegando cada vez mais rápido e precisar antecipar curvas. Uma taxa maior de quadros certamente deixaria tudo mais responsivo, mas a versão atual ainda consegue transmitir bem o principal.
Uma surpresa positiva apareceu nos tempos de carregamento. Trocar entre menus, finalizar algumas provas ou acessar diferentes partes da experiência acontece de forma relativamente rápida. Em um jogo com tanta coisa para fazer, qualquer demora exagerada poderia tornar a navegação cansativa.
Isso também ajuda a compensar a densidade de atividades. Você termina um evento, recebe suas recompensas e pouco depois já está acelerando novamente. Mesmo quando Motorfest apresenta telas, vídeos ou explicações das Playlists, raramente senti que o jogo estava roubando tempo demais entre duas corridas.
A troca rápida entre tipos de veículos também continua sendo uma das mecânicas mais divertidas, embora em algumas situações exista uma pequena espera antes de tudo aparecer completamente. É uma concessão fácil de aceitar diante da liberdade oferecida.
Existe ainda uma particularidade específica do hardware. Os gatilhos do Switch 2 não possuem a mesma leitura analógica encontrada em controles tradicionais de outras plataformas. Em muitas corridas isso não é um problema enorme. Você acelera, freia e o jogo funciona.
A diferença aparece quando é necessário trabalhar com pequenas variações de aceleração, especialmente em eventos de drift ou situações nas quais controlar cuidadosamente a entrega de potência facilita bastante manter o carro no limite. Não é impossível jogar e nem transforma o sistema em algo ruim, mas jogadores acostumados a modular o acelerador com muita precisão certamente vão sentir falta.
Existe a possibilidade de remapear aceleração e frenagem para o analógico direito, o que permite recuperar uma forma de entrada gradual. É uma solução funcional, mas exige reaprender parte dos controles e provavelmente não agradará a todo mundo. É menos um problema da adaptação e mais uma consequência das características do próprio console.
05 Online e cross-save
O ponto que mais me incomoda no Switch 2 não é gráfico. É a necessidade de permanecer conectado à internet. Motorfest continua sendo uma experiência online mesmo quando você pretende apenas explorar o mapa ou participar de conteúdo solo. Em um console tradicional isso já pode ser questionável. Em uma plataforma cujo maior atrativo é poder sair de casa e continuar jogando, a limitação pesa muito mais.
É estranho pensar em levar o Switch 2 durante uma viagem e descobrir que um dos jogos que mais combinaria com sessões portáteis depende de Wi-Fi ou de compartilhar os dados do celular. Em casa, praticamente desaparece como problema. Fora dela, pode definir completamente se o jogo será utilizável naquele momento.
A Ubisoft já demonstrou interesse em preservar a série com soluções offline em outros títulos e existe a perspectiva de algo semelhante para Motorfest no futuro, mas uma review precisa avaliar aquilo que temos agora. E agora, a conexão permanente continua sendo uma limitação importante.
Também vale lembrar que colocar o console em repouso por períodos longos pode interromper a conexão com os servidores. Ao retornar, existe a possibilidade de precisar aguardar uma nova comunicação antes de continuar. Isso vai contra aquela experiência instantânea que normalmente espero de um portátil: abrir a tela, apertar um botão e seguir exatamente de onde parei.
Em compensação, a integração com Ubisoft Connect entrega uma vantagem enorme: progressão cruzada. Quem já possui uma carreira em outra plataforma pode utilizar a mesma conta e continuar boa parte do progresso no Switch 2. Isso transforma esta versão em algo especialmente interessante para jogadores antigos.
Você pode ter passado dezenas de horas jogando no console de mesa e depois utilizar o Switch 2 para continuar determinadas atividades em outro lugar. Quando volta para a plataforma principal, o progresso acompanha você. É exatamente o tipo de recurso que faz sentido para um jogo de serviço contínuo.
Há, porém, um detalhe importante: progressão e propriedade de conteúdo não são exatamente a mesma coisa. Determinados DLCs ou itens comprados podem depender da plataforma e não necessariamente ficam utilizáveis apenas porque aparecem associados à sua carreira. É algo que vale verificar antes de imaginar que absolutamente tudo adquirido em outro console estará automaticamente disponível aqui.
O contexto do Switch 2 importa muito para avaliar Motorfest. Em plataformas onde Forza Horizon e outras grandes produções de corrida já estão disponíveis, existe muito mais competição direta. No console da Nintendo, o espaço ainda está relativamente aberto.
E Motorfest entra exatamente nesse espaço oferecendo uma experiência que simplesmente não possui muitos equivalentes no catálogo atual da plataforma. Mundo aberto, centenas de veículos, eventos temáticos, barcos, aviões, temporadas e uma estrutura online gigantesca formam um pacote difícil de ignorar para fãs de corrida.
Isso não torna esta a melhor versão do jogo. Quem possui um PC potente ou console atual e prioriza fidelidade visual e alta taxa de quadros encontrará experiências tecnicamente superiores nesses lugares. Mas isso também não significa que a versão do Switch 2 seja descartável. Ela oferece algo que as outras não conseguem reproduzir da mesma maneira: Motorfest em uma máquina híbrida. E quando você está jogando no modo portátil, essa diferença começa a fazer muito sentido.

06 Especificações
Fontes: anúncio oficial da Ubisoft sobre a versão de Nintendo Switch 2 e embalagem do produto.
07 Trilha sonora
Oito estações cobrem rock, EDM, hip-hop, synthwave, techno e clássicos. A lista abaixo reúne as faixas de cada rádio, incluindo as que chegaram com as temporadas.
L Faixa licenciada, fica fora do modo streamerT5 Adicionada na temporada indicada
Fonte da lista de faixas: Racing Soundtracks (racingsoundtracks.com).
08 Conclusão
The Crew Motorfest no Nintendo Switch 2 é um port cheio de concessões, mas também cheio de méritos. O jogo funciona a 30 FPS, apresenta pop-in bastante perceptível em determinados cenários e reduz detalhes e efeitos para caber no hardware. Os gatilhos digitais também não são ideais para algumas técnicas de direção. Nada disso deve ser escondido.
Só que existe outra parte da análise que pesa muito mais depois de várias horas: Motorfest continua extremamente divertido. As Playlists oferecem uma estrutura excelente, a variedade de veículos mantém a experiência constantemente fresca e Oʻahu funciona como um enorme parque de diversões para quem gosta de velocidade. A quantidade de conteúdo disponível atualmente também é gigantesca.
O maior problema, para mim, continua sendo o requisito online. Ter uma versão portátil de um jogo desse tamanho e não conseguir simplesmente jogá-lo offline durante uma viagem é uma contradição difícil de ignorar. Um modo sem conexão transformaria essa adaptação em uma proposta muito mais fácil de recomendar.
Mesmo assim, a Ubisoft conseguiu colocar praticamente a experiência completa de The Crew Motorfest no Switch 2 e preservar aquilo que realmente importa: a sensação de pegar um carro, escolher qualquer direção e encontrar alguma coisa divertida para fazer. Tecnicamente não é a edição definitiva. Como opção de corrida em mundo aberto dentro do ecossistema Nintendo, porém, é uma das melhores disponíveis atualmente.
The Crew Motorfest não chega ao Nintendo Switch 2 como sua versão tecnicamente mais impressionante, mas consegue preservar quase tudo aquilo que torna o jogo tão divertido. Há concessões visuais e a obrigação de estar conectado à internet combina muito pouco com um console portátil, porém a enorme quantidade de conteúdo, as ótimas Playlists e a liberdade para explorar Oʻahu por terra, água e ar fazem desta uma das experiências de corrida mais completas disponíveis na plataforma.